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Diversidade e Inclusão

Como superar a Síndrome da Impostora

05/03/20 15:48

Leia o artigo de Nana Lima, Diretora de Impacto do Think Eva e do Think Olga. Uma reflexão sobre como as mulheres enxergam suas próprias competências:

Artigo de Nana Lima sobre como as mulheres podem compartilhar

Além da identificação pessoal com esse tema, eu sempre me surpreendo com a identificação das mulheres com esse assunto - e mulheres muito diferentes entre si. É quase como se elas sentissem isso, mas ninguém nunca havia dito exatamente o que era “isso”. 

 "Ainda há dias em que acordo com a sensação de ser uma fraude; não estou certa de que deva estar onde estou”.

Sheryl Sandberg - COO Facebook

Aproveitei essa predisposição para pesquisar tudo que podia sobre o tema e transformá-lo em um conteúdo que ajude mulheres a lidarem melhor com essa Síndrome.

Então vamos lá...O que é essa tal de Síndrome da Impostora?

A Síndrome da Impostora é um fenômeno psicológico. Trata-se de uma auto-percepção na qual a pessoa se considera menos qualificada para uma determinada função, cargo ou papel do que seus colegas. As pessoas que sofrem dessa síndrome são incapazes de internalizar os seus feitos na vida. Não importa o nível de sucesso alcançado em sua área de estudo ou trabalho, ou quaisquer que sejam as provas externas de suas competências, essas pessoas permanecem convencidas de que não merecem suas próprias conquistas e que no fundo são uma fraude.

 O termo foi cunhado em 1978 por uma dupla de psicólogas, Pauline Clance e Suzanna Imes, após acompanharem 150 mulheres acadêmicas e notarem algo similar entre elas: todas dividiam a mesma tendência a ignorar as evidências de que eram inteligentes e acreditavam que todos estavam equivocados ao reconhecer os seus méritos.

 Resumindo, a Síndrome de Impostora te faz acreditar que todo o seu mérito é resultado direto de sorte, de estar no lugar certo na hora certa ou de ter conseguido enganar as pessoas em relação a sua capacidade e inteligência.

Os sentimentos que mais surgem com a Síndrome é um constante medo de ser exposta como uma fraude, sentimento de culpa por achar que está ocupando um espaço/cargo o qual não merece e o questionamento ou diminuição das suas conquistas.

 Em meio a esse turbilhão de emoções negativas, o que geralmente fazemos é compensar essa baixa autoestima com níveis de auto exigência inalcançáveis. Quem nunca aceitou tarefas dos outros e teve que ficar até mais tarde para terminar o seu trabalho? Ou ficou com um sentimento ruim por entregar um trabalho ótimo, mas que ainda não estava perfeito? E quem nunca disse sim quando queria dizer não e ter tempo para focar no que é importante?

 A Síndrome da Impostora faz com que a pessoa tente compensar o que ela entende como falta de capacidade - e não de preparação - com maior esforço e horas de trabalho.

Quando um projeto ou trabalho dá certo, essas pessoas atribuem o resultado positivo ao seu esforço extra e não à sua capacidade,

É importante entender que falta de preparação não é o mesmo que falta de capacidade. Quando saímos da nossa zona de conforto, normalmente precisamos de preparação, formação ou mentoria, mas raramente é o caso de falta de capacidade.

E por que estou falando da Síndrome de Impostora no feminino?

Apesar da Síndrome atingir a todos, as mulheres são as mais afetadas por esse fenômeno psicológico e as razões são diversas.

Nós mulheres fomos criadas em uma sociedade que valoriza nossos corpos e beleza, mas quase nunca nosso intelecto. Tivemos pouquíssimos exemplos (muitas vezes nenhum) de mulheres líderes sendo respeitadas e julgadas pelas suas ideias - e não pela sua aparência ou vida conjugal. Fomos ensinadas que mocinha não faz isso ou aquilo e que existe lugar de mulher e de homem.

Um estudo interno da Hewlett Packard, analisado pela Harvard Business Review, mostra que homens se candidatam a uma vaga quando preenchem 60% dos requisitos. Já as mulheres, somente quando alcançam 100% dos requisitos. Uma das justificativas dada por uma das mulheres foi: “Eu não me candidatei porque tinha certeza que eles não iam olhar meu currículo”. Aceitamos a derrota antes mesmo de tentar.

"Eu acho que ganhar um Oscar pode na verdade ter feito isso pior. Agora eu consegui isso, o que eu vou fazer a seguir? Para quê eu me esforço tanto?"

Lupita Nyong

Em uma sociedade patriarcal e machista, a norma - o que consideramos normal e digno de ocupar certos espaços – é a figura masculina e branca. Quanto maior o seu senso de pertencimento a determinado local ou grupo, maior será a sua autoestima. Se você entrar em uma sala para fazer uma apresentação sobre um projeto e ninguém naquela sala se parece com você, pode ter certeza de que em algum momento surgirá uma dúvida interna sobre a sua capacidade e mérito para estar ocupando aquele espaço. Isso quando o próprio ambiente das empresas não reforça essa sensação de maneira contínua.

 Isso acontece porque quando não somos a norma, nós representamos a todos que têm as nossas características. A Maju, sendo a primeira mulher negra na bancada do JN, representa todas as mulheres negras brasileiras. A qualidade do futebol da jogadora Marta valida se mulheres podem ou não jogar futebol.

 

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O quadrinho abaixo ilustra muito bem a contínua validação que mulheres vivem diariamente quando resolvem sair dos espaços designados para mulheres. 

 

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Ok, mas e o que podemos fazer a respeito?

Em primeiro lugar podemos tentar entender em qual perfil nos enquadramos.

 1) Estamos sendo PERFECCIONISTAS e traçando níveis altíssimos de exigência para nós mesmas? Mesmo quando alcançamos 99% das nossas metas, ainda assim achamos que somos uma fraude e questionamos nossos feitos?

2) Assumimos o perfil da GÊNIA e acreditamos que temos que aprender tudo rápido e sem esforço, quase como um talento nato. Caso isso não aconteça, entendemos não somos boa o suficiente para aquela tarefa/cargo/hobbie.

3) E por último, o perfil do VOO SOLO, onde acreditamos que devemos fazer tudo sozinhas e caso peçamos ajuda, só estaremos confirmando que somos uma fraude ou que falhamos. 

A consciência de qual perfil estamos assumindo é o primeiro passo para se sentir confortável com essa síndrome. O antidoto não é a autoconfiança inabalável - até porque já vimos que as mulheres mais bem-sucedidas no mundo se sentem impostoras – e sim o autoconhecimento. O objetivo não é nunca mais se sentir uma impostora. É criar ferramentas para lidar com essa percepção e diminuir esse sentimento.

Isso porque uma ansiedade controlada em relação ao seu trabalho significa que ele é importante para você. E isso é um bom sinal. Muitas vezes confundimos motivação com ansiedade e ter desafios na sua carreira demonstra que você está crescendo e aprendendo.

Abaixo selecionei cinco dicas para ajudar a enfrentar esses momentos com mais clareza:

 1 – Celebre suas vitórias

Vivemos na sociedade do excesso, enchemos nossas agendas com cada vez mais compromissos e raramente nos permitimos celebrar as pequenas vitórias. Crie o hábito de olhar para o seu dia/semana celebrando tudo que foi feito e alcançado (e não apenas o que não foi riscado na TO DO list).

 2 – Peça feedbacks honestos e objetivos

Selecione pessoas objetivas e responsáveis para pedir feedback. Com certeza essas pessoas serão muito mais objetivas que a nossa própria mente e não estarão fazendo isso “só para te agradar”. O olhar do outro sobre o nosso potencial muitas vezes é bem mais generoso que a nossa voz interna.

 3 – Em construção

Encare a sua jornada pela ótica do aprendizado. Ninguém nasce pronta e manter o olhar para o novo é algo positivo. Entender que não precisamos ter todas as respostas é adotar um mindset de aprendizado, uma postura que se mantém aberta para o erro. Vivemos em uma cultura do Perfomance mindset, algo extremamente tóxico, onde não podemos assumir uma postura vulnerável sobre certa decisão e muito menos admitir que estamos todas aprendendo.

 4 – Seja a mentora de alguém

Quando você compartilha o seu conhecimento, além de ajudar outra pessoa, você diminui a sensação de ser uma fraude na sua área.

 5 – Crie sua rede de apoio

Seja no ambiente de trabalho, na maternidade ou em qualquer situação em que você se sinta como uma impostora, ter uma rede de apoio para dividir as angústias é um bom caminho para diminuir essa sensação e entender esse sentimento.

 Trazer à tona todas as questões que envolvem o universo feminino é o primeiro passo para começar a mudar os status quo. Portanto, antes de descartar qualquer evidência de que você é capaz, pense duas vezes e se permita aproveitar a jornada. 

Nana Lima é publicitária, mãe e cofundadora da Think Eva - consultoria de inovação social para questões de gênero e intersecções no mundo corporativo. Também atua como diretora de impacto da Think Olga - organização não-governamental que promove inovação social para as mulheres por meio da comunicação. Obteve um MBA pela ESADE Business School em Barcelona, onde atuou como Head of Area em Marketing para o mercado Latino Americano em multinacionais como Desigual e Mango (MNG). Em 2016, foi eleita Top Voices Brasil pelo Linkedin.